No céu de seus olhos,
Sonhei...
No azul de seus olhos,
Me encontrei...
No céu azul de seus olhos,
Me desarmei...
No mar de seus olhos,
Me apaixonei...
No mar azul de seus olhos,
Seu amor!
Céu e mar...
Céu azul...
Mar azul...
Seu olhar no meu olhar!
sábado, 24 de outubro de 2009
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
Lacunas
O tempo...Passando...
Voando...
(Des)fazendo sua imagem
E na miragem
Seu (des)afeto,
Transformando-se
Em (des)amor!
Já não há saudade
Nem miragem...
Não há mais lacunas...
Tudo se (des)faz!
O tempo...
Passando...
(Des)aguando...
(Des)velando...
(Des)acreditando...
(Des)apegando-se...
(Des)apaixonando-se...
Quanto (des)Amor!!!
Quanto (des)Amor!!!
quarta-feira, 14 de outubro de 2009
O SIMBOLISMO NO BRASIL
Considera-se o ano de 1893 como o marco definitivo do Simbolismo no Brasil, ainda que antes dessa data se possam registrar várias manifestações poéticas ligadas à nova estética. Entre elas, destaca-se a publicação de Canções da decadência, de Medeiros e Albuquerque, em 1887. No ano de 1891, temos o primeiro manifesto Simbolista brasileiro, de Emiliano Perneta, Cruz e Sousa, Bernadino Lopes e Oscar Rosas, publicado na Folha Popular do Rio de Janeiro. Porém, já se consagrara o ano de 1893, com a publicação de Missal e Broquéis, de Cruz e Sousa, como o período de esplendor do Simbolismo no Brasil.
A força parnasiana não permitiu, contudo, que se desse grande divulgação a esse movimento literário brasileiro. Cruz e Sousa e Alphonsus de Guimaraens são considerados os maiores poetas do movimento, seguidos de Pedro Killerry, Mário Perdeneiras e Emiliano Perneta, entre outros mais.
Cruz e Sousa, “o cisne negro”, era filho de escravos, mas foi educado pelos antigos senhores de seus pais, concluindo o curso secundário, exercendo o jornalismo, o magistério e a literatura. Por ser negro, foi recusado como promotor público de Laguna. A partir de 1890, passou a viver no Rio de Janeiro, com o modesto cargo de arquivista da Central do Brasil. Marcado pela tragédia, viu a esposa enlouquecer depois de perder os três filhos, vítimas da doença que também o mataria – a tuberculose.
Esse poeta revela em seus primeiros trabalhos a influência parnasiana no que diz respeito à temática e à preocupação formal. Sentindo-se como um prisioneiro, um “emparedado”, num mundo de privações e infortúnios, aspirava a outro mundo, espiritual, expresso em suas poesias, marcadas por intenso misticismo e religiosidade.
Outra constante em sua obra é o fascínio pela cor branca, vista ora como simbolização da pureza, ora como manifestação de seu complexo racial e desejo de acesso ao mundo dos brancos. A pregação do amor, do dever, da caridade, do perdão e da grandeza moral também caracteriza a sua obra.
Para situarmos o Simbolismo no Brasil, necessário se faz tecer alguns comentários sobre as características dessa estética, já que vamos fazer uma leitura de Antífona, um dos poemas mais representativos de Cruz e Sousa.
Segundo os simbolistas, a realidade deveria ser expressa de maneira vaga, imprecisa, ilógica. É o que diz Mallarmé:
Nomear um objeto é suprimir três quartos do poema que é feito da felicidade em adivinhar pouco a pouco; sugeri-lo, eis o sonho... deve haver sempre enigma em poesia, e é o objeto da literatura – e não há outro – evocar os objetos. (CL, p. 229)
Associadas a essa característica, temos a utilização de palavras ambíguas, a fuga da lógica discursiva, o amplo uso de metáforas e sinestesias e o hermetismo.
“Antes de qualquer coisa, música” era o postulado de Verlaine. Dotando o poema de expressividade sonora e valorizando o ritmo, a musicalidade, as aliterações, as assonâncias e os ecos, os simbolistas procuravam aproximar a poesia da música, afastando o poema das referências concretas e instaurando uma atmosfera vaga, misteriosa e indefinida.
Desinteressado pela realidade objetiva, o simbolista voltava-se para o seu próprio eu, mas não o eu superficial do Romantismo. Tratava-se de buscar a essência do ser humano, o inconsciente, o subconsciente e os estados de alma.
O desejo de um mundo ideal, do qual o mundo real é apenas uma representação imperfeita, conduz o simbolista a procurar alcançá-lo através da poesia, vendo na arte uma forma de religião. Em alguns autores, esse desejo de evasão associa-se a uma visão cristã. São comuns a oposição entre matéria e espírito, a procura da purificação e a referência a regiões etéreas e ao espaço infinito.
No plano sintático-vocabular, observam-se o uso de vocábulos ligados ao místico e ao litúrgico: alma, infinito, desconhecido, essência, missal, breviário, hinos, salmos, ângelus etc. O uso do conectivo bíblico e, que tem essa dominação por ser bastante usado nos textos bíblicos, e o emprego de iniciais maiúsculas no interior do verso, enfatizando o aspecto simbólico e alegorizante dos vocábulos.
Por fim, o simbolismo herdou a preocupação formal e o descompromisso com a realidade mundana, o que afastou o poeta dos problemas sociais, deixando-o envolto em seu próprio universo. A expressão “alquimia verbal” caracteriza a preocupação dos simbolistas com a linguagem sugestiva e evocativa, enquanto o isolamento é sugerido pela expressão “torre de marfim”.
Seguindo os trilhos dessas características, faremos, a seguir, uma leitura de Antífona.
Ó Formas alvas, brancas, Formas claras
De luares; de neves, de neblinas!...
Ó Formas vagas, fluídas, cristalinas...
Incensos dos turíbulos das aras...
Formas do Amor, constelarmente puras,
De Virgens e de Santas vaporosas...
Brilhos errantes, mádidas frescuras
E dolência de lírios e rosas...
Indefiníveis músicas supremas,
Harmonias da Cor e do Perfume...
Horas do Ocaso, trêmulas, extremas,
Réquiem do Sol que a Dor da Luz resume...
Visões, salmos e cânticos serenos,
Surdinas de órgãos flébeis, soluçantes...
Dormências de volúpicos venenos
Sutis e suaves, mórbidos, radiantes...
Infinitos espíritos dispersos,
Inefáveis, edênicos, aéreos,
Fecundai o Mistério desses versos
Com a chama ideal de todos os mistérios.
Do Sonho as mais azuis diafaneidades
Que fuljam, que na Estrofe se levantem
E as emoções, todas as castidades
Da alma do Verso, pelos versos cantem.
Que o pólen de ouro dos mais finos astros
Fecunde e inflame a rima clara e ardente...
Que brilhe a correção dos albastros
Sonoramente, luminosamente.
Forças originais, essência, graça
De carnes de mulher, delicadezas...
Todo esse eflúvio que por ondas passa
Do Éter nas róseas e áureas correntezas...
Cristais diluídos de clarões alacres,
Desejos, vibrações, ânsias, alentos
Fulvas vitórias, triunfamentos acres,
Os mais estranhos estremecimentos...
Flores negras do tédio e flores vagas
De amores vãos, tantálicos, doentios...
Fundas vermelhidões de velhas chagas
Em sangue, abertas, escorrendo em rios...
Tudo! Vivo e nervoso e quente e forte,
Nos turbilhões quiméricos do Sonho,
Passe, cantando, ante o perfil medonho
E o tropel cabalístico da Morte... (CS, p. 31-2)
Do ponto de vista formal, podemos dizer que esse poema apresenta regularidade métrica e rítmica, pois os versos são decassílabos e as rimas são opostas e alternadas.
A presença de termos eruditos, dicionarizantes, estão presentes no poema. O título é o primeiro exemplo de linguagem pouco usual – Antífona: versículo que se anuncia antes de um salmo. A ele se acrescenta turíbulo: vaso em que se queima incenso nos templos, aras: altares dos sacrifícios nos templos, constelarmente: em forma de constelação, brilhante, mádidas: umedecidas, dolências: mágoa, sofrimento, Réquiem: missa fúnebre. Notamos o uso de reticências e de substantivos comuns escritos com letras maiúsculas: “Indefiníveis músicas supremas,/Harmonias da Cor e do Perfume.../Surdinas de órgãos flébeis, soluçantes.../Dormências de volúpicos venenos/Sutis e suaves, móbidos, radiantes...”.
Notamos que o poema faz uma invocação, um chamamento às Formas, que nada têm de exatas. Ao contrário, “são alvas, brancas, vagas, fluidas, cristalinas, de luares, de neves, de neblinas...”.
As imagens visuais mostram-nos as Formas cada vez mais esgarçadas, mais tênues, invisíveis, em consonância com a extrema musicalidade e as imagens olfativas – “Incensos dos turíbulos das aras...” – as quais, com seu vocabulário litúrgico, enfatizam a espiritualidade, o misticismo, o tom metafísico presente em todo o poema.
A sinestesia, mistura de sentidos, que acentua a dimensão transcendental, constitui um dos alicerces desse poema também caracterizado pela absolutização das palavras, uso de letras maiúsculas no meio e final de alguns versos, e pela sugestão do indizível através das reticências e da musicalidade.
O Simbolismo, aqui representado por um dos mais importantes poemas de nosso maior expoente dentro desse estilo, procura reatar as relações entre vida e poesia, sujeito e objeto. E o faz elaborando textos que não desdenham a preocupação formal e a precisão vocabular parnasianas, mas que a ambas acrescentam a negação da postura racional, objetiva, substituída pelo desejo de transcendência, pela busca de completude espiritual só vislumbrada num mundo metafísico, místico, inconsciente.
As palavras, então, não precisam ter significados exatos. Ao invés disso, elas constituem símbolos, imagens sensoriais, especialmente auditivas, musicais, que, combinadas com imagens visuais, olfativas, expressam a tentativa de unir num só, todos os sentidos, e de, através deles, penetrar na essência de nossa humanidade, de nossa alma violentada por um racionalismo, um objetivismo que nos coisificam, nos oprimem, muitas vezes sem que disso nos apercebamos.
Devemos atentar para a musicalidade de todo o poema, as sinestesias que lhe dão cor e perfume, como nos versos deste quarteto:
Indefiníveis músicas supremas,
Harmonias da Cor e do Perfume...
Hora do Ocaso, trêmulas, extremas,
Réquiem do sol que a Dor da Luz resume... (CS, p. .31)
As aliterações e assonâncias – supremas, trêmulas, extremas -, aliadas às sinestesias, propiciam um clima etéreo, vago, que transforma em música a palavra, em sugestões os significados e, no limite, em Réquiem do sol, isto é, em morte, uma vida resumida pela Dor da Luz. A dor da luz espiritual, do alumbramento interior, pode ter como apoteose, o momento supremo da morte, como na poesia romântica. Entretanto, não se trata de escapismo, de nefelibatismo, ou seja, de pessoas que vivem fora da realidade, no “mundo das nuvens” . Trata-se , sim, dos simbolistas.
Assim sendo, o que ocorre, na verdade, é um apelo ao inconsciente, às camadas mais profundas da mente humana – do “eu profundo” – com a finalidade de resgatar o homem do materialismo desenfreado em que vive. Nesse sentido, a poesia simbolista anuncia a decadência, a falência dos valores burgueses e a busca de novas realidades, invisíveis e interiores, que vão configurar, dentre outros elementos, aquilo que chamamos de Modernidade.
A força parnasiana não permitiu, contudo, que se desse grande divulgação a esse movimento literário brasileiro. Cruz e Sousa e Alphonsus de Guimaraens são considerados os maiores poetas do movimento, seguidos de Pedro Killerry, Mário Perdeneiras e Emiliano Perneta, entre outros mais.
Cruz e Sousa, “o cisne negro”, era filho de escravos, mas foi educado pelos antigos senhores de seus pais, concluindo o curso secundário, exercendo o jornalismo, o magistério e a literatura. Por ser negro, foi recusado como promotor público de Laguna. A partir de 1890, passou a viver no Rio de Janeiro, com o modesto cargo de arquivista da Central do Brasil. Marcado pela tragédia, viu a esposa enlouquecer depois de perder os três filhos, vítimas da doença que também o mataria – a tuberculose.
Esse poeta revela em seus primeiros trabalhos a influência parnasiana no que diz respeito à temática e à preocupação formal. Sentindo-se como um prisioneiro, um “emparedado”, num mundo de privações e infortúnios, aspirava a outro mundo, espiritual, expresso em suas poesias, marcadas por intenso misticismo e religiosidade.
Outra constante em sua obra é o fascínio pela cor branca, vista ora como simbolização da pureza, ora como manifestação de seu complexo racial e desejo de acesso ao mundo dos brancos. A pregação do amor, do dever, da caridade, do perdão e da grandeza moral também caracteriza a sua obra.
Para situarmos o Simbolismo no Brasil, necessário se faz tecer alguns comentários sobre as características dessa estética, já que vamos fazer uma leitura de Antífona, um dos poemas mais representativos de Cruz e Sousa.
Segundo os simbolistas, a realidade deveria ser expressa de maneira vaga, imprecisa, ilógica. É o que diz Mallarmé:
Nomear um objeto é suprimir três quartos do poema que é feito da felicidade em adivinhar pouco a pouco; sugeri-lo, eis o sonho... deve haver sempre enigma em poesia, e é o objeto da literatura – e não há outro – evocar os objetos. (CL, p. 229)
Associadas a essa característica, temos a utilização de palavras ambíguas, a fuga da lógica discursiva, o amplo uso de metáforas e sinestesias e o hermetismo.
“Antes de qualquer coisa, música” era o postulado de Verlaine. Dotando o poema de expressividade sonora e valorizando o ritmo, a musicalidade, as aliterações, as assonâncias e os ecos, os simbolistas procuravam aproximar a poesia da música, afastando o poema das referências concretas e instaurando uma atmosfera vaga, misteriosa e indefinida.
Desinteressado pela realidade objetiva, o simbolista voltava-se para o seu próprio eu, mas não o eu superficial do Romantismo. Tratava-se de buscar a essência do ser humano, o inconsciente, o subconsciente e os estados de alma.
O desejo de um mundo ideal, do qual o mundo real é apenas uma representação imperfeita, conduz o simbolista a procurar alcançá-lo através da poesia, vendo na arte uma forma de religião. Em alguns autores, esse desejo de evasão associa-se a uma visão cristã. São comuns a oposição entre matéria e espírito, a procura da purificação e a referência a regiões etéreas e ao espaço infinito.
No plano sintático-vocabular, observam-se o uso de vocábulos ligados ao místico e ao litúrgico: alma, infinito, desconhecido, essência, missal, breviário, hinos, salmos, ângelus etc. O uso do conectivo bíblico e, que tem essa dominação por ser bastante usado nos textos bíblicos, e o emprego de iniciais maiúsculas no interior do verso, enfatizando o aspecto simbólico e alegorizante dos vocábulos.
Por fim, o simbolismo herdou a preocupação formal e o descompromisso com a realidade mundana, o que afastou o poeta dos problemas sociais, deixando-o envolto em seu próprio universo. A expressão “alquimia verbal” caracteriza a preocupação dos simbolistas com a linguagem sugestiva e evocativa, enquanto o isolamento é sugerido pela expressão “torre de marfim”.
Seguindo os trilhos dessas características, faremos, a seguir, uma leitura de Antífona.
Ó Formas alvas, brancas, Formas claras
De luares; de neves, de neblinas!...
Ó Formas vagas, fluídas, cristalinas...
Incensos dos turíbulos das aras...
Formas do Amor, constelarmente puras,
De Virgens e de Santas vaporosas...
Brilhos errantes, mádidas frescuras
E dolência de lírios e rosas...
Indefiníveis músicas supremas,
Harmonias da Cor e do Perfume...
Horas do Ocaso, trêmulas, extremas,
Réquiem do Sol que a Dor da Luz resume...
Visões, salmos e cânticos serenos,
Surdinas de órgãos flébeis, soluçantes...
Dormências de volúpicos venenos
Sutis e suaves, mórbidos, radiantes...
Infinitos espíritos dispersos,
Inefáveis, edênicos, aéreos,
Fecundai o Mistério desses versos
Com a chama ideal de todos os mistérios.
Do Sonho as mais azuis diafaneidades
Que fuljam, que na Estrofe se levantem
E as emoções, todas as castidades
Da alma do Verso, pelos versos cantem.
Que o pólen de ouro dos mais finos astros
Fecunde e inflame a rima clara e ardente...
Que brilhe a correção dos albastros
Sonoramente, luminosamente.
Forças originais, essência, graça
De carnes de mulher, delicadezas...
Todo esse eflúvio que por ondas passa
Do Éter nas róseas e áureas correntezas...
Cristais diluídos de clarões alacres,
Desejos, vibrações, ânsias, alentos
Fulvas vitórias, triunfamentos acres,
Os mais estranhos estremecimentos...
Flores negras do tédio e flores vagas
De amores vãos, tantálicos, doentios...
Fundas vermelhidões de velhas chagas
Em sangue, abertas, escorrendo em rios...
Tudo! Vivo e nervoso e quente e forte,
Nos turbilhões quiméricos do Sonho,
Passe, cantando, ante o perfil medonho
E o tropel cabalístico da Morte... (CS, p. 31-2)
Do ponto de vista formal, podemos dizer que esse poema apresenta regularidade métrica e rítmica, pois os versos são decassílabos e as rimas são opostas e alternadas.
A presença de termos eruditos, dicionarizantes, estão presentes no poema. O título é o primeiro exemplo de linguagem pouco usual – Antífona: versículo que se anuncia antes de um salmo. A ele se acrescenta turíbulo: vaso em que se queima incenso nos templos, aras: altares dos sacrifícios nos templos, constelarmente: em forma de constelação, brilhante, mádidas: umedecidas, dolências: mágoa, sofrimento, Réquiem: missa fúnebre. Notamos o uso de reticências e de substantivos comuns escritos com letras maiúsculas: “Indefiníveis músicas supremas,/Harmonias da Cor e do Perfume.../Surdinas de órgãos flébeis, soluçantes.../Dormências de volúpicos venenos/Sutis e suaves, móbidos, radiantes...”.
Notamos que o poema faz uma invocação, um chamamento às Formas, que nada têm de exatas. Ao contrário, “são alvas, brancas, vagas, fluidas, cristalinas, de luares, de neves, de neblinas...”.
As imagens visuais mostram-nos as Formas cada vez mais esgarçadas, mais tênues, invisíveis, em consonância com a extrema musicalidade e as imagens olfativas – “Incensos dos turíbulos das aras...” – as quais, com seu vocabulário litúrgico, enfatizam a espiritualidade, o misticismo, o tom metafísico presente em todo o poema.
A sinestesia, mistura de sentidos, que acentua a dimensão transcendental, constitui um dos alicerces desse poema também caracterizado pela absolutização das palavras, uso de letras maiúsculas no meio e final de alguns versos, e pela sugestão do indizível através das reticências e da musicalidade.
O Simbolismo, aqui representado por um dos mais importantes poemas de nosso maior expoente dentro desse estilo, procura reatar as relações entre vida e poesia, sujeito e objeto. E o faz elaborando textos que não desdenham a preocupação formal e a precisão vocabular parnasianas, mas que a ambas acrescentam a negação da postura racional, objetiva, substituída pelo desejo de transcendência, pela busca de completude espiritual só vislumbrada num mundo metafísico, místico, inconsciente.
As palavras, então, não precisam ter significados exatos. Ao invés disso, elas constituem símbolos, imagens sensoriais, especialmente auditivas, musicais, que, combinadas com imagens visuais, olfativas, expressam a tentativa de unir num só, todos os sentidos, e de, através deles, penetrar na essência de nossa humanidade, de nossa alma violentada por um racionalismo, um objetivismo que nos coisificam, nos oprimem, muitas vezes sem que disso nos apercebamos.
Devemos atentar para a musicalidade de todo o poema, as sinestesias que lhe dão cor e perfume, como nos versos deste quarteto:
Indefiníveis músicas supremas,
Harmonias da Cor e do Perfume...
Hora do Ocaso, trêmulas, extremas,
Réquiem do sol que a Dor da Luz resume... (CS, p. .31)
As aliterações e assonâncias – supremas, trêmulas, extremas -, aliadas às sinestesias, propiciam um clima etéreo, vago, que transforma em música a palavra, em sugestões os significados e, no limite, em Réquiem do sol, isto é, em morte, uma vida resumida pela Dor da Luz. A dor da luz espiritual, do alumbramento interior, pode ter como apoteose, o momento supremo da morte, como na poesia romântica. Entretanto, não se trata de escapismo, de nefelibatismo, ou seja, de pessoas que vivem fora da realidade, no “mundo das nuvens” . Trata-se , sim, dos simbolistas.
Assim sendo, o que ocorre, na verdade, é um apelo ao inconsciente, às camadas mais profundas da mente humana – do “eu profundo” – com a finalidade de resgatar o homem do materialismo desenfreado em que vive. Nesse sentido, a poesia simbolista anuncia a decadência, a falência dos valores burgueses e a busca de novas realidades, invisíveis e interiores, que vão configurar, dentre outros elementos, aquilo que chamamos de Modernidade.
DECADENTISMO E SIMBOLISMO
Quando o século XIX se aproximava de seu fim, uma sensação difusa de que as coisas estavam para acabar impulsionava o ser humano em direção a uma postura pessimista, justificada pelo agravamento dos problemas sociais desencadeados pela Revolução Industrial. As pessoas, durante meio século aproximadamente, conviveram com diferentes tendências de ver e interpretar o mundo em termos estéticos, sem que nenhuma dessas tendências tenha sido capaz de apresentar respostas satisfatórias para angústias de cunho individual ou para problemas de natureza coletiva.
Uma visão decadentista se propagava pela Europa. O artista, testemunha dessa tendência, isolava-se da sociedade, voltando-se para si mesmo, para impressões e intuições que refletiam o tédio e o marasmo provocados pelo mundo que o rodeava.
Historicamente, o movimento simbolista tem suas raízes profundas nos traços românticos que haviam permanecido subjacentes durante a escola realista, naturalista e parnasiana. Nascido na França, entre manifestações anti-realistas, o Simbolismo foi chamado de decadentismo ou decadismo. Esse nome traduz claramente a noção básica que orientava os seus seguidores: a de que a civilização burguesa chegara a tal ponto de decadência, de dissolução moral e espiritual, que a vida se transformara num grande mal-estar, suportável apenas pela fruição dos prazeres mais fortes, como os gozos sensuais. “A sociedade se desagrega sob a ação corrosiva de uma civilização deliqüescente. O homem moderno é um insensível” – afirma o Manifesto decadente.
Desprezando a ciência e a técnica como componentes desse mundo burguês, os simbolistas valorizam a intuição pessoal e a liberdade imaginativa como forma de conhecimento. Substituem a objetividade dos realistas e a impassibilidade dos parnasianos pela convicção de que o significado do mundo decorre da subjetividade que se possa dele apreender: aos indivíduos dotados superiormente cabe a revelação das misteriosas relações que configuram o universo. A poesia passa a ser considerada um esforço de captação e fixação das sutis sensações produzidas pela investigação do mundo interior. Despreza-se a realidade social imediata e produz-se uma arte introspectiva e aristocratizante – uma arte de nefelibatas que, em suas torres de marfim, criam símbolos poéticos das realidades profundas colocadas além da realidade aparente.
Assim, os poetas que, a princípio, adotaram as idéias de Baudelaire, Verlaine e Marllamé, como reação à poesia parnasiana, passaram a ser chamados de decadentes, ou ainda nefelibatas. O movimento adquiriu novas feições, acrescentando ao repúdio pelo mundo burguês uma atitude transcendente, em busca de realidades mais amplas do que aquela que a ciência e o Positivismo haviam revelado e proposto. O símbolo literário seria a forma de traduzir num corpo sensível as revelações desses mundos descobertos pelos artistas – daí a denominação simbolismo. Afinal, como dizia Baudelaire: “As imagens não são um ornamento poético, mas uma revelação da realidade profunda das coisas”.
Exploram-se as qualidades musicais da linguagem em vários níveis: no vocabulário, com a seleção e criação de palavras eufônicas; na combinação vocabular, com rimas internas e aliterações; na métrica e estrofação, com a liberdade rítmica vocabular, a combinação de versos e estrofes de diferentes medidas e feitios e o cuidado com as rimas originais. Procura-se sensibilizar o leitor pela exploração de recursos ligados a vários sentidos, despertando-lhe a apreensão sinestésica. O texto é oferecido como obra de significação aberta, cuja interpretação – quase nunca definitiva – depende de uma cuidadosa e sensível leitura.
Precursor desse estado de alma, o poeta Charles Baudelaire1 já traduzia, em As flores do mal, o estado de espírito finissecular que traria consigo o Simbolismo como uma nova proposta estética. Em poemas como Spleen, Baudelaire externa o sentimento de tédio existencial que encurrala o ser humano, tirando-lhe todas as perspectivas de vida, deixando-o sem esperanças e impedindo-o de vislumbrar uma saída para a situação em que se encontra:
Quando o céu baixo e hostil pesa como uma tampa
Sobre a alma que, gemendo. Ao tédio ainda resiste,
E do horizonte todo enleando a curva escampa,
Destila um dia escuro e mais que as noites tristes,
Quando a terra se torna em úmida enxovia
Onde a Esperança, como um morcego perdido,
Nos muros vai bater a asa tímida e fria
E a cabeça ferir no teto apodrecido;
Quando a visão. A escorrer suas cordas tamanhas,
De uma vasta prisão as grades delineia,
E a muda multidão das infames aranhas
No cérebro da gente estende a teia,
Sinos badalam, de repente, furibundos
E lançam contra o céu um rugido insolente,
Como espíritos que, sem pátria e vagabundos,
Começam a gemer recalcitrantemente. (FM, p. 88 )
As angústias do indivíduo perdido em meio à multidão também aparecem na lírica baudelairiana, traduzindo a impossibilidade de relações sólidas e duradouras. Tudo passava a ser visto como símbolo de uma essência distante e praticamente inacessível para o ser humano que, confuso, vagava à procura de sentido para a sua existência. Talvez, por isso, a chegada do final do século favorecia o desenvolvimento de uma visão decadentista, que resultaria em uma profunda insatisfação com as formas de manifestação estética em voga na Europa. De maneira geral, as pessoas mostravam-se descontentes com os aspectos positivistas e mecanicistas presentes no Parnasianismo e no Naturalismo. Era necessário encontrar uma nova forma de manifestar a visão de mundo que se constituía naquele momento de traços bastantes pessimistas.
E foi assim que aflorou a estética Simbolista como uma tentativa de representar, por meio da arte, a transcendência humana sobre os aspectos materiais. Oficialmente, o início do movimento Simbolista ocorreu em 1886, com a publicação, no jornal francês Le Figaro, de um manifesto do poeta Jean Moréas, que sugeria a troca do termo decadente por simbolismo. Nesse texto, Moreás prenunciava o surgimento de uma estética idealista e transcendente, que se oporia à rigidez formal do Parnasianismo, ao mesmo tempo que não incorreria nos exageros sentimentalistas do Romantismo. O desafio lançado para os escritores era um só: precisavam encontrar uma forma de expressar suas idéias e sentimentos por meio de símbolos.
O primeiro grande autor a vencer tal desafio foi o poeta Charles Baudelaire que, ao lado de Verlaine, Rimbaud e Marllamé, inscreveu o Simbolismo como um dos grandes momentos estéticos da literatura francesa.
Segundo Helena Parente Cunha:
Entre os precursores desta poética, o poeta francês Baudelaire quer dar uma imagem daquele mundo imaterial que a realidade fenomênica esconde, quer mostrar que o “visível”, por místicas “correspondências”, pode proporcionar-nos um esboço do “invisível”, isto é, a misteriosa unidade sob as aparências multiformes.( CL, p.157)
O soneto Correspondências, de Baudelaire, publicado em As flores do Mal, fala-nos de uma “floresta” de símbolos, das correspondências das imagens acústicas, visuais e olfativas, valorizando as sinestesias e a idéia de que com os símbolos poderíamos representar as coisas espirituais através das coisas concretas:
A natureza é um templo em que vivas pilastras
Deixam sair às vezes obscuras palavras;
O homem a percorre através de florestas de símbolos
Que o observam com olhares familiares
Como longos ecos que de longe se confundem
Numa tenebrosa e profunda unidade,
Vasta como a noite e como a claridade,
Os perfumes, as cores e os sons se correspondem.
Há perfumes saudáveis como carnes de crianças,
Doces como oboés, verdes como as campinas,
- E outros, corrompidos, ricos, triunfantes,
Tendo a efusão das coisas infinitas,
Como o âmbar, o almíscar, o benjoim e o incenso,
Que cantam os êxtases do espírito e dos sentidos. (FM, p. 19 )
Se observarmos a terceira estrofe, veremos que o pensamento de Baudelaire é de que as sensações não são meramente sensações, podem transmitir pensamentos de corrupção, riqueza ou triunfo. Já na primeira estrofe está a idéia de que os objetos também não são simplesmente objetos, mas símbolos de formas ideais ocultas por trás deles.
Outro poema significativo é Arte Poética, de Verlaine, escrito em 1874, no qual estão presentes novos elementos fundamentais da estética Simbolista, entre eles a música, a ambigüidade das palavras, a atmosfera de sonho, a luminosidade impressionista, a antieloqüência e a maneira vaga e imprecisa de expressar a realidade:
Antes de qualquer coisa, música
E para isso, prefere o Ímpar
Mais vago e mais solúvel no ar,
Sem nada que pese ou pouse.
É preciso também que não vás nunca
Escolher tuas palavras sem ambigüidade:
Nada mais caro que a canção cinzenta
Onde o Indeciso se junta ao Preciso.
São belos olhos atrás dos véus,
É o grande dia trêmulo de meio-dia,
É, através do céu morno de outono,
O azul desordenado das claras estrelas!
Porque nós ainda queremos o Matiz,
Nada de Cor, nada a não ser o matiz!
Oh! O maiz único que liga
O sonho ao sonho e a flauta à trompa.
Foge para longe da Piada assassina,
Do Espírito cruel e do Riso impuro
Que fazem chorar os olhos do Azul
E todo esse alho de baixa cozinha!
Toma a eloqüência e torce-lhe o pescoço!
Tu farás bem, já que começastes,
Em tornar a rima um pouco razoável.
Se não a vigiarmos, até onde ela irá?
Oh! Quem dirá os malefícios da Rima?
Que criança surda ou que negro louco
Nos forjou esta jóia barata
Que soa oca e falsa sob a lima?
Ainda e sempre, a música!
Que teu verso seja a coisa volátil
Que se sente fugir de uma alma em vôo
Para outros céus e para outras paixões.
Que teu verso seja o bom acontecimento
Esparso no vento crispado da manhã
Que vai florindo a hortelã e o timo...
E tudo o mais é só literatura. (CL, p. 158)
Como se vê, diante de um texto Simbolista não devemos procurar a mensagem. Rico em conotações, o texto Simbolista deve ser lido observando-se a musicalidade, as sugestões e o estado emotivo do poeta.
Uma visão decadentista se propagava pela Europa. O artista, testemunha dessa tendência, isolava-se da sociedade, voltando-se para si mesmo, para impressões e intuições que refletiam o tédio e o marasmo provocados pelo mundo que o rodeava.
Historicamente, o movimento simbolista tem suas raízes profundas nos traços românticos que haviam permanecido subjacentes durante a escola realista, naturalista e parnasiana. Nascido na França, entre manifestações anti-realistas, o Simbolismo foi chamado de decadentismo ou decadismo. Esse nome traduz claramente a noção básica que orientava os seus seguidores: a de que a civilização burguesa chegara a tal ponto de decadência, de dissolução moral e espiritual, que a vida se transformara num grande mal-estar, suportável apenas pela fruição dos prazeres mais fortes, como os gozos sensuais. “A sociedade se desagrega sob a ação corrosiva de uma civilização deliqüescente. O homem moderno é um insensível” – afirma o Manifesto decadente.
Desprezando a ciência e a técnica como componentes desse mundo burguês, os simbolistas valorizam a intuição pessoal e a liberdade imaginativa como forma de conhecimento. Substituem a objetividade dos realistas e a impassibilidade dos parnasianos pela convicção de que o significado do mundo decorre da subjetividade que se possa dele apreender: aos indivíduos dotados superiormente cabe a revelação das misteriosas relações que configuram o universo. A poesia passa a ser considerada um esforço de captação e fixação das sutis sensações produzidas pela investigação do mundo interior. Despreza-se a realidade social imediata e produz-se uma arte introspectiva e aristocratizante – uma arte de nefelibatas que, em suas torres de marfim, criam símbolos poéticos das realidades profundas colocadas além da realidade aparente.
Assim, os poetas que, a princípio, adotaram as idéias de Baudelaire, Verlaine e Marllamé, como reação à poesia parnasiana, passaram a ser chamados de decadentes, ou ainda nefelibatas. O movimento adquiriu novas feições, acrescentando ao repúdio pelo mundo burguês uma atitude transcendente, em busca de realidades mais amplas do que aquela que a ciência e o Positivismo haviam revelado e proposto. O símbolo literário seria a forma de traduzir num corpo sensível as revelações desses mundos descobertos pelos artistas – daí a denominação simbolismo. Afinal, como dizia Baudelaire: “As imagens não são um ornamento poético, mas uma revelação da realidade profunda das coisas”.
Exploram-se as qualidades musicais da linguagem em vários níveis: no vocabulário, com a seleção e criação de palavras eufônicas; na combinação vocabular, com rimas internas e aliterações; na métrica e estrofação, com a liberdade rítmica vocabular, a combinação de versos e estrofes de diferentes medidas e feitios e o cuidado com as rimas originais. Procura-se sensibilizar o leitor pela exploração de recursos ligados a vários sentidos, despertando-lhe a apreensão sinestésica. O texto é oferecido como obra de significação aberta, cuja interpretação – quase nunca definitiva – depende de uma cuidadosa e sensível leitura.
Precursor desse estado de alma, o poeta Charles Baudelaire1 já traduzia, em As flores do mal, o estado de espírito finissecular que traria consigo o Simbolismo como uma nova proposta estética. Em poemas como Spleen, Baudelaire externa o sentimento de tédio existencial que encurrala o ser humano, tirando-lhe todas as perspectivas de vida, deixando-o sem esperanças e impedindo-o de vislumbrar uma saída para a situação em que se encontra:
Quando o céu baixo e hostil pesa como uma tampa
Sobre a alma que, gemendo. Ao tédio ainda resiste,
E do horizonte todo enleando a curva escampa,
Destila um dia escuro e mais que as noites tristes,
Quando a terra se torna em úmida enxovia
Onde a Esperança, como um morcego perdido,
Nos muros vai bater a asa tímida e fria
E a cabeça ferir no teto apodrecido;
Quando a visão. A escorrer suas cordas tamanhas,
De uma vasta prisão as grades delineia,
E a muda multidão das infames aranhas
No cérebro da gente estende a teia,
Sinos badalam, de repente, furibundos
E lançam contra o céu um rugido insolente,
Como espíritos que, sem pátria e vagabundos,
Começam a gemer recalcitrantemente. (FM, p. 88 )
As angústias do indivíduo perdido em meio à multidão também aparecem na lírica baudelairiana, traduzindo a impossibilidade de relações sólidas e duradouras. Tudo passava a ser visto como símbolo de uma essência distante e praticamente inacessível para o ser humano que, confuso, vagava à procura de sentido para a sua existência. Talvez, por isso, a chegada do final do século favorecia o desenvolvimento de uma visão decadentista, que resultaria em uma profunda insatisfação com as formas de manifestação estética em voga na Europa. De maneira geral, as pessoas mostravam-se descontentes com os aspectos positivistas e mecanicistas presentes no Parnasianismo e no Naturalismo. Era necessário encontrar uma nova forma de manifestar a visão de mundo que se constituía naquele momento de traços bastantes pessimistas.
E foi assim que aflorou a estética Simbolista como uma tentativa de representar, por meio da arte, a transcendência humana sobre os aspectos materiais. Oficialmente, o início do movimento Simbolista ocorreu em 1886, com a publicação, no jornal francês Le Figaro, de um manifesto do poeta Jean Moréas, que sugeria a troca do termo decadente por simbolismo. Nesse texto, Moreás prenunciava o surgimento de uma estética idealista e transcendente, que se oporia à rigidez formal do Parnasianismo, ao mesmo tempo que não incorreria nos exageros sentimentalistas do Romantismo. O desafio lançado para os escritores era um só: precisavam encontrar uma forma de expressar suas idéias e sentimentos por meio de símbolos.
O primeiro grande autor a vencer tal desafio foi o poeta Charles Baudelaire que, ao lado de Verlaine, Rimbaud e Marllamé, inscreveu o Simbolismo como um dos grandes momentos estéticos da literatura francesa.
Segundo Helena Parente Cunha:
Entre os precursores desta poética, o poeta francês Baudelaire quer dar uma imagem daquele mundo imaterial que a realidade fenomênica esconde, quer mostrar que o “visível”, por místicas “correspondências”, pode proporcionar-nos um esboço do “invisível”, isto é, a misteriosa unidade sob as aparências multiformes.( CL, p.157)
O soneto Correspondências, de Baudelaire, publicado em As flores do Mal, fala-nos de uma “floresta” de símbolos, das correspondências das imagens acústicas, visuais e olfativas, valorizando as sinestesias e a idéia de que com os símbolos poderíamos representar as coisas espirituais através das coisas concretas:
A natureza é um templo em que vivas pilastras
Deixam sair às vezes obscuras palavras;
O homem a percorre através de florestas de símbolos
Que o observam com olhares familiares
Como longos ecos que de longe se confundem
Numa tenebrosa e profunda unidade,
Vasta como a noite e como a claridade,
Os perfumes, as cores e os sons se correspondem.
Há perfumes saudáveis como carnes de crianças,
Doces como oboés, verdes como as campinas,
- E outros, corrompidos, ricos, triunfantes,
Tendo a efusão das coisas infinitas,
Como o âmbar, o almíscar, o benjoim e o incenso,
Que cantam os êxtases do espírito e dos sentidos. (FM, p. 19 )
Se observarmos a terceira estrofe, veremos que o pensamento de Baudelaire é de que as sensações não são meramente sensações, podem transmitir pensamentos de corrupção, riqueza ou triunfo. Já na primeira estrofe está a idéia de que os objetos também não são simplesmente objetos, mas símbolos de formas ideais ocultas por trás deles.
Outro poema significativo é Arte Poética, de Verlaine, escrito em 1874, no qual estão presentes novos elementos fundamentais da estética Simbolista, entre eles a música, a ambigüidade das palavras, a atmosfera de sonho, a luminosidade impressionista, a antieloqüência e a maneira vaga e imprecisa de expressar a realidade:
Antes de qualquer coisa, música
E para isso, prefere o Ímpar
Mais vago e mais solúvel no ar,
Sem nada que pese ou pouse.
É preciso também que não vás nunca
Escolher tuas palavras sem ambigüidade:
Nada mais caro que a canção cinzenta
Onde o Indeciso se junta ao Preciso.
São belos olhos atrás dos véus,
É o grande dia trêmulo de meio-dia,
É, através do céu morno de outono,
O azul desordenado das claras estrelas!
Porque nós ainda queremos o Matiz,
Nada de Cor, nada a não ser o matiz!
Oh! O maiz único que liga
O sonho ao sonho e a flauta à trompa.
Foge para longe da Piada assassina,
Do Espírito cruel e do Riso impuro
Que fazem chorar os olhos do Azul
E todo esse alho de baixa cozinha!
Toma a eloqüência e torce-lhe o pescoço!
Tu farás bem, já que começastes,
Em tornar a rima um pouco razoável.
Se não a vigiarmos, até onde ela irá?
Oh! Quem dirá os malefícios da Rima?
Que criança surda ou que negro louco
Nos forjou esta jóia barata
Que soa oca e falsa sob a lima?
Ainda e sempre, a música!
Que teu verso seja a coisa volátil
Que se sente fugir de uma alma em vôo
Para outros céus e para outras paixões.
Que teu verso seja o bom acontecimento
Esparso no vento crispado da manhã
Que vai florindo a hortelã e o timo...
E tudo o mais é só literatura. (CL, p. 158)
Como se vê, diante de um texto Simbolista não devemos procurar a mensagem. Rico em conotações, o texto Simbolista deve ser lido observando-se a musicalidade, as sugestões e o estado emotivo do poeta.
O FENÔMENO PAULO COELHO: O TRANSCENDENTAL E O AVENTURESCO
A Idade Média surge diante de nossos olhos sempre como cenário de desgraças, pestes, guerras, violências, aliada a um fanatismo religioso intenso, fazendo com que ainda hoje apareça como uma ameaça constante de um futuro iminente. Roberto Vacca em seu livro A próxima Idade Média evidencia que:
Há muitos indícios de que já começou uma época de fenômenos degenerativos, tanto que não parece absurdo falar hoje de uma próxima Idade Média, levando-se em conta que a expressão compreende três hipóteses: que uma era de desordem, destruição e deteriorização esteja para começar; que este início seja iminente; e que esta era será seguida por outra de Renascimento(V, p. 4).
Eco salienta, também, que a Idade Média:
Sob sua aparência imobilista e dogmática foi,para- doxalmente, um momento de revolução cultural. O processo todo foi naturalmente caracterizado por pestes e massacres, intolerância e morte (E, p.99).
E, em seguida, Vacca fala que “os profetas de hoje não dizem que devemos temer anjos, dragões e abismos, mas que devemos temer o holocausto, a superpopulação, o aniquilamento e o desastre ecológico”(V, p. 2).
É na luta por uma melhoria de vida que algumas pessoas tentam de certa forma encontrar alguma força no transcendental. Quer seja pela busca da elevação de seu espírito ou mesmo para resolver os seus problemas materiais.
Vacca diz-nos que na próxima Idade Média “as livres associações não terão vida fácil. O rápido retorno a uma penúria generalizada será acompanhada de violência e crueldade” (V, p. 41).
Talvez seja por toda essa crise por que passamos, desolados em meio a um mundo decadente, sem nenhum paradigma de valores morais, éticos, sociais, etc., que faz com que uma boa parte de pessoas procurem no misticismo a realização de seus anseios ou que “sejam profetas de si mesmas” por absoluta necessidade de sobreviverem a esse caos em que se encontra o mundo de hoje.
O profético Vacca está certo, pois assistimos à onda de profanação que acontece no mundo atual, propiciando as cenas mais degradantes de violência e de violação de todas as normas de convivência entre as pessoas com outras e com elas mesmas.
Segundo Caillois:
As pessoas que se entregam incondicionalmente a algum princípio tendem a reconstituir uma espécie de meio sagrado, que pode fazer eclodir emoções violentas de natureza específica, capazes de tomar um aspecto religioso caracterizado, êxtase, fanatismo ou misticismo,e que, no plano social, dão origem de modo mais ou menos nítido a dogmas e a ritos, a uma mitologia e a um culto (C, p.129).
E Caillois está certo, pois o clima espiritual de nosso tempo é marcado pela carência do divino e essa carência é denunciada em nossa época pela crescente procura do sobrenatural. Nunca saiu tanto livro sobre ocultismo e esoterismo da indústria cultural, como tem saído agora.
Nesse contexto encaixa-se O alquimista, escrito em 1988, sendo considerado o maior sucesso de Paulo Coelho. Segundo o artigo de Apoenam Rodrigues, na revista Isto É, em 03/08/94, O alquimista está na 124.a edição, com 1,65 milhão de exemplares vendidos. Apoenan relata que
A carreira vitoriosa de O alquimista não se restringe às livrarias. A Warner Brothers, na figura do produtor Robert Schwartz, comprou os direitos autorais para um filme com estréia prevista no exterior em 1996.(...)A obra foi também adaptada para história em quadrinhos pela editora Record(IE, p. 78).
De espírito aventuresco, o protagonista Santiago sonha com um tesouro egípcio e parte em busca dele. Na linguagem metafórica do autor a atitude traduz a tentativa da conquista da “própria lenda”, a “luta pelo bom combate”.
O alquimista é sem dúvida nenhuma um best-seller, principalmente pela mensagem, que é diluída em frases que são repetidas inadvertidamente pelos seus leitores.
Podemos classificar esse romance como de aventura, pois segundo Muniz Sodré:
Hoje, como no passado, o leitor projeta-se nas aventuras heróicas, dando vazão ao seu desejo de potência, de aproximar-se dos deuses, e de poder, como o herói, escapar às leis do cotidiano repetitivo e monótono(S, p. 24).
É Roger Caillois quem sustenta:
Na narrativa de aventuras, a narrativa segue a ordem dos acontecimentos. Vai do antes para o depois do prólogo ao desfecho. O desenrolar da intriga reproduz a sucessão dos fatos: ela adota o curso do tempo (S, p. 40).
No plano do aventuresco, como vamos demonstrar a seguir, podemos dividir a história de Santiago, contada em O alquimista, em várias etapas, tais como: venturas e desventuras em Tânger; peregrinação pelo deserto; a descoberta do amor; encontro com o alquimista; a caminho das Pirâmides e, finalmente, a volta para casa.
O alquimista narra a história de um pastor espanhol, que sonha em encontrar um tesouro nas Pirâmides do Egito:
Certa noite, um jovem pastor tem um sonho repetido: fala de um tesouro oculto, guardado perto das Pirâmides do Egito. O rapaz resolve seguir seu sonho e, defronta-se com os grandes mistérios que acompanham o Homem desde os começos dos tempos: os sinais de Deus, a Lenda Pessoal que cada um de nós precisa viver, a misteriosa Alma do Mundo, onde qualquer pessoa pode penetrar se ouvir o próprio coração (...)( A, p.1).
A fim de ajudá-lo em suas buscas, Melquisedec, rei de Salém, vende-lhe duas pedras mágicas, chamadas Urim e Turim:
- Tome - disse o velho, tirando uma pedra branca e uma pedra negra que estavam presas no centro do peitoral de ouro. - Chamavam-se Urim e Turim. A preta quer dizer “sim”, a branca quer dizer “não”. Quando você não conseguir enxergar os sinais, elas servem. Faça sempre uma pergunta objetiva (A, p. 57).
A partir daí, Santiago começa a sua aventura. Vai para Tânger, na África. Lá é assaltado e sofre a sua primeira desilusão. Sem dinheiro e com fome, resolve abrir seu alforje para ver o que tinha lá dentro, só encontrando “o livro grosso, o casaco, e as duas pedras que o velho lhe dera” (A, p. 69).
Como as pedras serviam para adivinhação, resolveu perguntar se a benção do velho ainda continuava com ele, tendo imediatamente a confirmação. Desse modo, fica mais confiante, não se desespera, pois
O mundo novo aparecia na sua frente sob a forma de um mercado vazio, mas ele já vira aquele mercado cheio de vida, e nunca mais ia se esquecer. (...) Sentiu de repente que ele podia olhar o mundo como uma pobre vítima de um ladrão, ou como um aventureiro em busca de tesouro (A, p.71).
Desse modo, passa a se virar em Tânger, até que conhece o Mercador de Cristais e começa a trabalhar para ele, embora não fosse “exatamente o tipo de emprego que lhe fazia bem” (A, p.83).
Trabalhou por onze meses e nove dias para o Mercador de Cristais. Tinha como objetivo juntar dinheiro “o suficiente para comprar cento e vinte ovelhas, uma passagem de volta, e uma licença de comércio entre o seu país e o país onde estava” (A, p. 95). Conseguiu o dinheiro finalmente. Quando vai arrumar os seus pertences para retornar à Espanha, as duas pedras, dadas pelo velho rei, rolam pelo chão do quarto. Santiago, então,
(...)pegou o Urim e o Turim no chão, e teve novamente aquela estranha sensação de que o rei estava perto. Trabalhara duro durante o ano, e os sinais indicavam que agora era o momento de partir (A, p.98).
Foi-se, sem se despedir do Mercador de Cristais, “mas estava segurando o Urim e o Turim nas mãos, e estas pedras lhe traziam a força e a vontade do velho rei”(A, p.99).
Chamamos a atenção, neste ponto, para a forte presença do transcendental na aventura de Santiago, principalmente nos seus momentos de dúvida, fazendo-o sempre recorrer às pedras mágicas.
Estava muito mais próximo de Andaluzia, sua cidade, do que das Pirâmides. Num momento de indecisão, tão comum a todas as criaturas quando partem em busca de seus tesouros, Santiago vacila, questionando-se:
Sei porque quero voltar para minhas ovelhas. Eu já conheço as ovelhas; não dão muito trabalho, e podem ser amadas. Não sei se o deserto pode ser amado, mas é o deserto que esconde o meu tesouro. Se eu não conseguir encontrá-lo, poderei sempre voltar para casa. Mas de repente a vida me deu dinheiro suficiente, e eu não tenho todo o tempo que preciso; por que não? (A, p.100).
Resolve, afinal, continuar a sua aventura. Junta-se a uma caravana e parte para o deserto em companhia de um inglês. Faz, também, “amizade com o cameleiro que viajava sempre ao seu lado” (S, p.114).
Ao chegar no oásis, conhece Fátima:
Quando ele olhou seus olhos negros, seus lábios indecisos entre um sorriso e um silêncio, ele entendeu a parte mais importante e mais sábia da Linguagem que o mundo falava, e que todas as pessoas eram capazes de entender em seus corações. E isto era chamado de Amor,(...)(A, p. 153).
Apaixonam-se. Passam a se encontrar sempre no mesmo horário, perto do poço. Fátima, ao saber do sonho de Santiago e de toda a sua peregrinação, sugere, quaisquer que sejam as circunstâncias, que ele siga em direção à sua lenda.
Depois de algum tempo, Santiago tem a visão “de um exécito de espadas desembainhadas, entrando no oásis” (A, p. 162). Procura, então, os chefes das tribos e o mais importante deles disse-lhe:
Para cada dez inimigos mortos, você receberá uma moeda de ouro. (...) Entretanto, as armas não podem sair do seu lugar sem experimentarem a batalha (...) Se nenhuma delas tiver sido utilizada amanhã, pelo menos uma será usada em você (A, p.170).
Mas, Santiago sabia que
Se morresse amanhã, seria porque Deus não estava com vontade de mudar o futuro. Mas teria morrido depois de haver cruzado o estreito, trabalhado em uma loja de cristais, conhecido o silêncio do deserto e os olhos de Fátima.(...) Se morresse amanhã, seus olhos teriam visto muito mais coisas do que os olhos dos outros pastores, e o rapaz tinha orgulho disto (A, p.173).
Este seu pensamento, era-lhe confortador, pois ainda que morresse, havia vivido parte de sua aventura.
Nesta mesma noite, Santiago é abordado por um “estranho cavalheiro”, travando assim conhecimento com o Alquimista de Al-Fayoum.
Na manhã seguinte, o oásis, conforme a sua premonição, foi atacado por “dois mil homens armados” do deserto e mais de quatrocentos deles morreram. Santiago, então, recebe do chefe tribal cinqüenta moedas de ouro.
Em companhia do Alquimista, resolve continuar a sua aventura. Durante a viagem, os dois são atacados por três ladrões árabes que acabam deixando-os “partir sem maiores contratempos, com todos os seus pertences” (A, p.205). Alguns dias depois, são novamente atacados por outros salteadores e ameaçados de morte, caso Santiago não se transformasse em vento. Somente no terceiro dia, do alto de um morro, ele começa a conversar com o deserto (“O que é o amor?” pergunta o deserto. “Amor é o sentimento que move o mundo”, responde o pastor (A, p.218). Por último, surge “a Mão que tudo havia escrito” (A, p.225), uma imensa mão que o transforma em vento. Os ladrões ficaram tão aterrorizados e amedrontados com a “bruxaria”, que os deixaram partir.
Quando eles estavam próximos às Pirâmides, o Alquimista despede-se de Santiago. Só que, antes de se separarem, o Alquimista leva o pastor a um mosteiro e faz com que ele presencie a transformação do chumbo em ouro. Depois disso, despedem-se e Santiago segue rumo ao seu destino.
Assim que chega às Pirâmides, aparecem salteadores e roubam-lhe todo o seu dinheiro. Ao ser interrogado por um dos ladrões por que ali estava, o pastor contou-lhe sobre o sonho
que tivera e o chefe dos salteadores resolveu deixá-lo ir, dizendo-lhe:
Aí, neste mesmo lugar onde você está, eu também tive um sonho repetido há quase dois anos atrás. Sonhei que deveria ir até os campos da Espanha, buscar uma igreja em ruínas, onde os pastores costumavam dormir com suas ovelhas e que tinha um sicômoro, haveria de encontrar o tesouro escondido(A, p.242).
Livre, Santiago retorna à Espanha e volta à igreja abandonada. De posse do tesouro, parte em busca de Fátima.
Como pudemos observar, a aventura de Santiago traz-nos uma mensagem de acontecimentos que costumam ocorrer na vida de muitas pessoas: saem em busca do tesouro, na aventura da vida, para, velhas e cansadas, volverem ao ponto de partida, onde descobrem os tesouros de suas vidas.
Da leitura de O alquimista, fica-nos a idéia da força do transcendental e do aventuresco na constituição de um best-seller, conforme a opinião de Muniz Sodré, uma vez que este tipo de obra tem o seu público garantido.
Além desses dois elementos primordiais, para se obter um best-seller, Sodré sugere ainda mais alguns, que podem melhor temperar a receita: o mítico, a atualidade informativo-jornalística, o pedagogismo e o descompromisso com a retórica culta ou consagrada.
No caso de O alquimista, tais ingredientes também estão presentes, como passamos a demonstrar:
Mítico - “A narrativa possui vários arquétipos míticos que transformam muitos dos personagens em verdadeiros tipos modelares” (S, p.8).
Como já dissemos, Santiago é um pastor que, tendo duas vezes o mesmo sonho, sai em busca de sua lenda pessoal. Passa por muitos obstáculos e desafios para finalmente atingir seu objetivo. Mostra-se um vencedor, principalmente por ter tido a determinação de ir até o fim.
Santiago desperta no leitor a chama da esperança, principalmente nessa época atual de desesperança e desenganos, em que as pessoas buscam alguma força transcendental para que possam lutar por sua própria sobrevivência. Santiago simboliza o herói. Sempre exteriorizando o seu pensamento, suas análises, deduções e ilações, fazendo com que o leitor passe a assimilá-los e a segui-los como se fosse uma fórmula mágica para a resolução de seus problemas.
Um exemplo disto é o pensamento: “E quando você quer alguma coisa, todo o universo conspira para que você realize seu desejo” que aparece exatamente igual nas páginas 48, 70, 98 e 180.
A cigana, Melquisedec (Rei de Salém) e o alquimista representam a superstição, o mítico e a busca de uma força transcendental.
Fátima simboliza a cara metade de Santiago, o amor em toda sua plenitude e completude entre homem-mulher.
O personagem ladrão é o típico arquétipo do mal, assim como os salteadores. São os oportunistas que, para conseguirem o que querem, não medem as conseqüências e não se importam com o que fazem.
O Mercador de Cristais representa simbolicamente as pessoas que se acomodam na vida, não a questionam, aceitam-na do jeito que ela é.
O Mercador de Cristais viu o dia nascer, e sentiu a mesma angústia que experimentava todas as manhãs. Estava há quase trinta anos naquele mesmo lugar, uma loja no alto de uma ladeira, onde raramente passava um comprador. Agora era tarde para mudar qualquer coisa: tudo que havia aprendido na vida era vender e comprar cristais (R, p.75).
Atualidade informativo-jornalística -
Transparece em todos os relatos do livro a necessidade de informar, de pôr o leitor ao corrente de grandes fatos, teorias e doutrinas -seja do próprio autor, seja da própria época - de uma maneira fácil e acessível, a exemplo da linguagem jornalística (S, p.8).
Em todo o livro, o autor informa ao leitor algumas teorias e doutrinas sobre a alquimia, numa linguagem fácil, a exemplo da linguagem jornalística. Poderíamos exemplificar com o prefácio do romance em que Paulo Coelho explica sobre o fato de O alquimista ser um livro simbólico e faz um relato sobre a sua própria procura em relação a este tema. Informa ao leitor sobre o que seja alquimia e quais são os tipos de alquimistas que existem.
Desse modo, o leitor vai automatizando e interiorizando as fórmulas para conseguir ir em busca de sua meta. Fórmulas simples, repetitivas, que dependem somente da vontade e determinação do próprio leitor:
Só sentimos medo de perder aquilo que temos, sejam nossas vidas ou nossas plantações. Mas este medo passa quando entendemos que nossa história e a história do mundo foram escritas pela mesma Mão (A, p.115).
O leitor, também, através da peregrinação de Santiago, informa-se de episódios históricos reais. Paulo Coelho, para escrever esse romance, foi até os Pirâmides do Egito, e ao Deserto do Saara, pesquisar a origem e os principais códigos da Grande Obra.
Pedagogismo -
Há também a intenção clara de ensinar alguma coisa, isto é, um explícito pedagogismo. Através daí vislumbra-se a ideologia do autor. O pedagogismo é uma tentativa de respostas a questões reais levantadas pelo romancista (S, p.9).
No decorrer de O alquimista há uma intenção clara por parte do autor em ensinar alguma coisa. Nesse caso, é a ideologia de Paulo Coelho, que é um místico, voltado para o transcendental. Segundo Apoenan Rodrigues:
Paulo Coelho já fez escola. Seguindo a tradição de transmitir os conhecimentos da magia, ele já formou alguns discípulos. No momento tem um em Madri, um em Lisboa, dois em Salvador e um em São Paulo (IE, p. 79).
Cita também que,
A recepcionista carioca Maria Inês Pinto, 29 anos, considerada pelo próprio Paulo Coelho sua leitora padrão, aprendeu todas as lições. “Ele ensina a gente a não deixar morrer nosso ideal, a descobrir o poder que está dentro de nós”, diz. “Basta saber trabalhar suas dicas que podemos ser mais felizes” (IE, p.78).
Descompromisso com a retórica culta -
Ao recalcar industrialmente o cordel no século XIX, a literatura de massa também abriu mão de uma linguagem própria, dando às costas à problemática do estilo. De uma maneira geral, a retórica do folhetim é pobre, esquemática, destinada apenas a armar com eficácia a seqüência dos acontecimentos fictícios. E esta retórica é sempre subsidiária da literatura culta (S, p.9).
O alquimista retoma uma retórica literária fácil, de informações simples, reavivando temas míticos tendo como influência o próprio mercado na organização da narrativa. Com uma linguagem direta esse romance consegue ser acessível a todos.”Seus leitores não se importam se o livro é mal escrito ou narrado como uma fórmula da Maga Patalógica” (IE, p. 78), diz-nos Apoenan Rodrigues.
Como vemos, o fenômeno Paulo Coelho é um fenômeno do best-seller! Que o diga Luiz Suwarez, editor da Companhia das Letras, considerada a editora mais sofisticada, pela qualidade de seus lançamentos. Ao ser entrevistado por Apoenam Rodrigues, em 02/11/94, Suwarez declarou que
acredita que os livros de sucesso estimulam leitores a novas descobertas literárias(...) e que o Brasil não está deixando de ser um país da qualidade porque Paulo Coelho faz sucesso. Ele tem uma proposta clara, que faz com muita competência, e atinge um público que provavelmente não estava aí (IE, p.6).
Podemos concluir que O alquimista é realmente um best-seller, porque conseguiu atingir a um número muito grande de leitores, pela sua alta vendagem, em virtude de falar a linguagem que esses leitores buscavam avidamente para alimentarem seus sonhos e desejos de uma vida melhor.
Na verdade, todos nós buscamos alguma coisa e nos identificamos com aqueles que falam a nossa linguagem. É assim que, no íntimo, são aventureiros os que buscam os livros de aventura nos quais realizam esse anseio.
Os que se sentem frustrados e acovardados diante da vida buscam nos autores místicos os recursos transcendentais para a aquisição de uma força psíquica capaz de reencorporá-los à luta pela sobrevivência.
Na atualidade, estamos vivendo momentos apocalípticos, o número dos que campeiam amargurados e desiludidos cresce dia-a-dia, crescendo concomitantemente o de autores de tempos venturosos, mediante a transmissão de mensagens míticas ou transcendentais, tendo como objetivo ensinar ao homem como resolver os seus problemas de ordem exclusivamente material.
O personagem Santiago é um indivíduo que em busca de seu “tesouro”, de sua “lenda pessoal”, encontra afinal a solução de todos os seus problemas de ordem material.
Cada um de nós, na verdade, é um pouco Santiago. Falamos dos bens do Céu, mas queremos mesmo os da Terra, pois precisamos do transcendental para viver a aventura da vida. Enquanto houver no mundo um descontente que seja, este buscará em alguém ou em alguma fonte informativa o motivo para voltar a acreditar na luta da cotidiano.
Há muitos indícios de que já começou uma época de fenômenos degenerativos, tanto que não parece absurdo falar hoje de uma próxima Idade Média, levando-se em conta que a expressão compreende três hipóteses: que uma era de desordem, destruição e deteriorização esteja para começar; que este início seja iminente; e que esta era será seguida por outra de Renascimento(V, p. 4).
Eco salienta, também, que a Idade Média:
Sob sua aparência imobilista e dogmática foi,para- doxalmente, um momento de revolução cultural. O processo todo foi naturalmente caracterizado por pestes e massacres, intolerância e morte (E, p.99).
E, em seguida, Vacca fala que “os profetas de hoje não dizem que devemos temer anjos, dragões e abismos, mas que devemos temer o holocausto, a superpopulação, o aniquilamento e o desastre ecológico”(V, p. 2).
É na luta por uma melhoria de vida que algumas pessoas tentam de certa forma encontrar alguma força no transcendental. Quer seja pela busca da elevação de seu espírito ou mesmo para resolver os seus problemas materiais.
Vacca diz-nos que na próxima Idade Média “as livres associações não terão vida fácil. O rápido retorno a uma penúria generalizada será acompanhada de violência e crueldade” (V, p. 41).
Talvez seja por toda essa crise por que passamos, desolados em meio a um mundo decadente, sem nenhum paradigma de valores morais, éticos, sociais, etc., que faz com que uma boa parte de pessoas procurem no misticismo a realização de seus anseios ou que “sejam profetas de si mesmas” por absoluta necessidade de sobreviverem a esse caos em que se encontra o mundo de hoje.
O profético Vacca está certo, pois assistimos à onda de profanação que acontece no mundo atual, propiciando as cenas mais degradantes de violência e de violação de todas as normas de convivência entre as pessoas com outras e com elas mesmas.
Segundo Caillois:
As pessoas que se entregam incondicionalmente a algum princípio tendem a reconstituir uma espécie de meio sagrado, que pode fazer eclodir emoções violentas de natureza específica, capazes de tomar um aspecto religioso caracterizado, êxtase, fanatismo ou misticismo,e que, no plano social, dão origem de modo mais ou menos nítido a dogmas e a ritos, a uma mitologia e a um culto (C, p.129).
E Caillois está certo, pois o clima espiritual de nosso tempo é marcado pela carência do divino e essa carência é denunciada em nossa época pela crescente procura do sobrenatural. Nunca saiu tanto livro sobre ocultismo e esoterismo da indústria cultural, como tem saído agora.
Nesse contexto encaixa-se O alquimista, escrito em 1988, sendo considerado o maior sucesso de Paulo Coelho. Segundo o artigo de Apoenam Rodrigues, na revista Isto É, em 03/08/94, O alquimista está na 124.a edição, com 1,65 milhão de exemplares vendidos. Apoenan relata que
A carreira vitoriosa de O alquimista não se restringe às livrarias. A Warner Brothers, na figura do produtor Robert Schwartz, comprou os direitos autorais para um filme com estréia prevista no exterior em 1996.(...)A obra foi também adaptada para história em quadrinhos pela editora Record(IE, p. 78).
De espírito aventuresco, o protagonista Santiago sonha com um tesouro egípcio e parte em busca dele. Na linguagem metafórica do autor a atitude traduz a tentativa da conquista da “própria lenda”, a “luta pelo bom combate”.
O alquimista é sem dúvida nenhuma um best-seller, principalmente pela mensagem, que é diluída em frases que são repetidas inadvertidamente pelos seus leitores.
Podemos classificar esse romance como de aventura, pois segundo Muniz Sodré:
Hoje, como no passado, o leitor projeta-se nas aventuras heróicas, dando vazão ao seu desejo de potência, de aproximar-se dos deuses, e de poder, como o herói, escapar às leis do cotidiano repetitivo e monótono(S, p. 24).
É Roger Caillois quem sustenta:
Na narrativa de aventuras, a narrativa segue a ordem dos acontecimentos. Vai do antes para o depois do prólogo ao desfecho. O desenrolar da intriga reproduz a sucessão dos fatos: ela adota o curso do tempo (S, p. 40).
No plano do aventuresco, como vamos demonstrar a seguir, podemos dividir a história de Santiago, contada em O alquimista, em várias etapas, tais como: venturas e desventuras em Tânger; peregrinação pelo deserto; a descoberta do amor; encontro com o alquimista; a caminho das Pirâmides e, finalmente, a volta para casa.
O alquimista narra a história de um pastor espanhol, que sonha em encontrar um tesouro nas Pirâmides do Egito:
Certa noite, um jovem pastor tem um sonho repetido: fala de um tesouro oculto, guardado perto das Pirâmides do Egito. O rapaz resolve seguir seu sonho e, defronta-se com os grandes mistérios que acompanham o Homem desde os começos dos tempos: os sinais de Deus, a Lenda Pessoal que cada um de nós precisa viver, a misteriosa Alma do Mundo, onde qualquer pessoa pode penetrar se ouvir o próprio coração (...)( A, p.1).
A fim de ajudá-lo em suas buscas, Melquisedec, rei de Salém, vende-lhe duas pedras mágicas, chamadas Urim e Turim:
- Tome - disse o velho, tirando uma pedra branca e uma pedra negra que estavam presas no centro do peitoral de ouro. - Chamavam-se Urim e Turim. A preta quer dizer “sim”, a branca quer dizer “não”. Quando você não conseguir enxergar os sinais, elas servem. Faça sempre uma pergunta objetiva (A, p. 57).
A partir daí, Santiago começa a sua aventura. Vai para Tânger, na África. Lá é assaltado e sofre a sua primeira desilusão. Sem dinheiro e com fome, resolve abrir seu alforje para ver o que tinha lá dentro, só encontrando “o livro grosso, o casaco, e as duas pedras que o velho lhe dera” (A, p. 69).
Como as pedras serviam para adivinhação, resolveu perguntar se a benção do velho ainda continuava com ele, tendo imediatamente a confirmação. Desse modo, fica mais confiante, não se desespera, pois
O mundo novo aparecia na sua frente sob a forma de um mercado vazio, mas ele já vira aquele mercado cheio de vida, e nunca mais ia se esquecer. (...) Sentiu de repente que ele podia olhar o mundo como uma pobre vítima de um ladrão, ou como um aventureiro em busca de tesouro (A, p.71).
Desse modo, passa a se virar em Tânger, até que conhece o Mercador de Cristais e começa a trabalhar para ele, embora não fosse “exatamente o tipo de emprego que lhe fazia bem” (A, p.83).
Trabalhou por onze meses e nove dias para o Mercador de Cristais. Tinha como objetivo juntar dinheiro “o suficiente para comprar cento e vinte ovelhas, uma passagem de volta, e uma licença de comércio entre o seu país e o país onde estava” (A, p. 95). Conseguiu o dinheiro finalmente. Quando vai arrumar os seus pertences para retornar à Espanha, as duas pedras, dadas pelo velho rei, rolam pelo chão do quarto. Santiago, então,
(...)pegou o Urim e o Turim no chão, e teve novamente aquela estranha sensação de que o rei estava perto. Trabalhara duro durante o ano, e os sinais indicavam que agora era o momento de partir (A, p.98).
Foi-se, sem se despedir do Mercador de Cristais, “mas estava segurando o Urim e o Turim nas mãos, e estas pedras lhe traziam a força e a vontade do velho rei”(A, p.99).
Chamamos a atenção, neste ponto, para a forte presença do transcendental na aventura de Santiago, principalmente nos seus momentos de dúvida, fazendo-o sempre recorrer às pedras mágicas.
Estava muito mais próximo de Andaluzia, sua cidade, do que das Pirâmides. Num momento de indecisão, tão comum a todas as criaturas quando partem em busca de seus tesouros, Santiago vacila, questionando-se:
Sei porque quero voltar para minhas ovelhas. Eu já conheço as ovelhas; não dão muito trabalho, e podem ser amadas. Não sei se o deserto pode ser amado, mas é o deserto que esconde o meu tesouro. Se eu não conseguir encontrá-lo, poderei sempre voltar para casa. Mas de repente a vida me deu dinheiro suficiente, e eu não tenho todo o tempo que preciso; por que não? (A, p.100).
Resolve, afinal, continuar a sua aventura. Junta-se a uma caravana e parte para o deserto em companhia de um inglês. Faz, também, “amizade com o cameleiro que viajava sempre ao seu lado” (S, p.114).
Ao chegar no oásis, conhece Fátima:
Quando ele olhou seus olhos negros, seus lábios indecisos entre um sorriso e um silêncio, ele entendeu a parte mais importante e mais sábia da Linguagem que o mundo falava, e que todas as pessoas eram capazes de entender em seus corações. E isto era chamado de Amor,(...)(A, p. 153).
Apaixonam-se. Passam a se encontrar sempre no mesmo horário, perto do poço. Fátima, ao saber do sonho de Santiago e de toda a sua peregrinação, sugere, quaisquer que sejam as circunstâncias, que ele siga em direção à sua lenda.
Depois de algum tempo, Santiago tem a visão “de um exécito de espadas desembainhadas, entrando no oásis” (A, p. 162). Procura, então, os chefes das tribos e o mais importante deles disse-lhe:
Para cada dez inimigos mortos, você receberá uma moeda de ouro. (...) Entretanto, as armas não podem sair do seu lugar sem experimentarem a batalha (...) Se nenhuma delas tiver sido utilizada amanhã, pelo menos uma será usada em você (A, p.170).
Mas, Santiago sabia que
Se morresse amanhã, seria porque Deus não estava com vontade de mudar o futuro. Mas teria morrido depois de haver cruzado o estreito, trabalhado em uma loja de cristais, conhecido o silêncio do deserto e os olhos de Fátima.(...) Se morresse amanhã, seus olhos teriam visto muito mais coisas do que os olhos dos outros pastores, e o rapaz tinha orgulho disto (A, p.173).
Este seu pensamento, era-lhe confortador, pois ainda que morresse, havia vivido parte de sua aventura.
Nesta mesma noite, Santiago é abordado por um “estranho cavalheiro”, travando assim conhecimento com o Alquimista de Al-Fayoum.
Na manhã seguinte, o oásis, conforme a sua premonição, foi atacado por “dois mil homens armados” do deserto e mais de quatrocentos deles morreram. Santiago, então, recebe do chefe tribal cinqüenta moedas de ouro.
Em companhia do Alquimista, resolve continuar a sua aventura. Durante a viagem, os dois são atacados por três ladrões árabes que acabam deixando-os “partir sem maiores contratempos, com todos os seus pertences” (A, p.205). Alguns dias depois, são novamente atacados por outros salteadores e ameaçados de morte, caso Santiago não se transformasse em vento. Somente no terceiro dia, do alto de um morro, ele começa a conversar com o deserto (“O que é o amor?” pergunta o deserto. “Amor é o sentimento que move o mundo”, responde o pastor (A, p.218). Por último, surge “a Mão que tudo havia escrito” (A, p.225), uma imensa mão que o transforma em vento. Os ladrões ficaram tão aterrorizados e amedrontados com a “bruxaria”, que os deixaram partir.
Quando eles estavam próximos às Pirâmides, o Alquimista despede-se de Santiago. Só que, antes de se separarem, o Alquimista leva o pastor a um mosteiro e faz com que ele presencie a transformação do chumbo em ouro. Depois disso, despedem-se e Santiago segue rumo ao seu destino.
Assim que chega às Pirâmides, aparecem salteadores e roubam-lhe todo o seu dinheiro. Ao ser interrogado por um dos ladrões por que ali estava, o pastor contou-lhe sobre o sonho
que tivera e o chefe dos salteadores resolveu deixá-lo ir, dizendo-lhe:
Aí, neste mesmo lugar onde você está, eu também tive um sonho repetido há quase dois anos atrás. Sonhei que deveria ir até os campos da Espanha, buscar uma igreja em ruínas, onde os pastores costumavam dormir com suas ovelhas e que tinha um sicômoro, haveria de encontrar o tesouro escondido(A, p.242).
Livre, Santiago retorna à Espanha e volta à igreja abandonada. De posse do tesouro, parte em busca de Fátima.
Como pudemos observar, a aventura de Santiago traz-nos uma mensagem de acontecimentos que costumam ocorrer na vida de muitas pessoas: saem em busca do tesouro, na aventura da vida, para, velhas e cansadas, volverem ao ponto de partida, onde descobrem os tesouros de suas vidas.
Da leitura de O alquimista, fica-nos a idéia da força do transcendental e do aventuresco na constituição de um best-seller, conforme a opinião de Muniz Sodré, uma vez que este tipo de obra tem o seu público garantido.
Além desses dois elementos primordiais, para se obter um best-seller, Sodré sugere ainda mais alguns, que podem melhor temperar a receita: o mítico, a atualidade informativo-jornalística, o pedagogismo e o descompromisso com a retórica culta ou consagrada.
No caso de O alquimista, tais ingredientes também estão presentes, como passamos a demonstrar:
Mítico - “A narrativa possui vários arquétipos míticos que transformam muitos dos personagens em verdadeiros tipos modelares” (S, p.8).
Como já dissemos, Santiago é um pastor que, tendo duas vezes o mesmo sonho, sai em busca de sua lenda pessoal. Passa por muitos obstáculos e desafios para finalmente atingir seu objetivo. Mostra-se um vencedor, principalmente por ter tido a determinação de ir até o fim.
Santiago desperta no leitor a chama da esperança, principalmente nessa época atual de desesperança e desenganos, em que as pessoas buscam alguma força transcendental para que possam lutar por sua própria sobrevivência. Santiago simboliza o herói. Sempre exteriorizando o seu pensamento, suas análises, deduções e ilações, fazendo com que o leitor passe a assimilá-los e a segui-los como se fosse uma fórmula mágica para a resolução de seus problemas.
Um exemplo disto é o pensamento: “E quando você quer alguma coisa, todo o universo conspira para que você realize seu desejo” que aparece exatamente igual nas páginas 48, 70, 98 e 180.
A cigana, Melquisedec (Rei de Salém) e o alquimista representam a superstição, o mítico e a busca de uma força transcendental.
Fátima simboliza a cara metade de Santiago, o amor em toda sua plenitude e completude entre homem-mulher.
O personagem ladrão é o típico arquétipo do mal, assim como os salteadores. São os oportunistas que, para conseguirem o que querem, não medem as conseqüências e não se importam com o que fazem.
O Mercador de Cristais representa simbolicamente as pessoas que se acomodam na vida, não a questionam, aceitam-na do jeito que ela é.
O Mercador de Cristais viu o dia nascer, e sentiu a mesma angústia que experimentava todas as manhãs. Estava há quase trinta anos naquele mesmo lugar, uma loja no alto de uma ladeira, onde raramente passava um comprador. Agora era tarde para mudar qualquer coisa: tudo que havia aprendido na vida era vender e comprar cristais (R, p.75).
Atualidade informativo-jornalística -
Transparece em todos os relatos do livro a necessidade de informar, de pôr o leitor ao corrente de grandes fatos, teorias e doutrinas -seja do próprio autor, seja da própria época - de uma maneira fácil e acessível, a exemplo da linguagem jornalística (S, p.8).
Em todo o livro, o autor informa ao leitor algumas teorias e doutrinas sobre a alquimia, numa linguagem fácil, a exemplo da linguagem jornalística. Poderíamos exemplificar com o prefácio do romance em que Paulo Coelho explica sobre o fato de O alquimista ser um livro simbólico e faz um relato sobre a sua própria procura em relação a este tema. Informa ao leitor sobre o que seja alquimia e quais são os tipos de alquimistas que existem.
Desse modo, o leitor vai automatizando e interiorizando as fórmulas para conseguir ir em busca de sua meta. Fórmulas simples, repetitivas, que dependem somente da vontade e determinação do próprio leitor:
Só sentimos medo de perder aquilo que temos, sejam nossas vidas ou nossas plantações. Mas este medo passa quando entendemos que nossa história e a história do mundo foram escritas pela mesma Mão (A, p.115).
O leitor, também, através da peregrinação de Santiago, informa-se de episódios históricos reais. Paulo Coelho, para escrever esse romance, foi até os Pirâmides do Egito, e ao Deserto do Saara, pesquisar a origem e os principais códigos da Grande Obra.
Pedagogismo -
Há também a intenção clara de ensinar alguma coisa, isto é, um explícito pedagogismo. Através daí vislumbra-se a ideologia do autor. O pedagogismo é uma tentativa de respostas a questões reais levantadas pelo romancista (S, p.9).
No decorrer de O alquimista há uma intenção clara por parte do autor em ensinar alguma coisa. Nesse caso, é a ideologia de Paulo Coelho, que é um místico, voltado para o transcendental. Segundo Apoenan Rodrigues:
Paulo Coelho já fez escola. Seguindo a tradição de transmitir os conhecimentos da magia, ele já formou alguns discípulos. No momento tem um em Madri, um em Lisboa, dois em Salvador e um em São Paulo (IE, p. 79).
Cita também que,
A recepcionista carioca Maria Inês Pinto, 29 anos, considerada pelo próprio Paulo Coelho sua leitora padrão, aprendeu todas as lições. “Ele ensina a gente a não deixar morrer nosso ideal, a descobrir o poder que está dentro de nós”, diz. “Basta saber trabalhar suas dicas que podemos ser mais felizes” (IE, p.78).
Descompromisso com a retórica culta -
Ao recalcar industrialmente o cordel no século XIX, a literatura de massa também abriu mão de uma linguagem própria, dando às costas à problemática do estilo. De uma maneira geral, a retórica do folhetim é pobre, esquemática, destinada apenas a armar com eficácia a seqüência dos acontecimentos fictícios. E esta retórica é sempre subsidiária da literatura culta (S, p.9).
O alquimista retoma uma retórica literária fácil, de informações simples, reavivando temas míticos tendo como influência o próprio mercado na organização da narrativa. Com uma linguagem direta esse romance consegue ser acessível a todos.”Seus leitores não se importam se o livro é mal escrito ou narrado como uma fórmula da Maga Patalógica” (IE, p. 78), diz-nos Apoenan Rodrigues.
Como vemos, o fenômeno Paulo Coelho é um fenômeno do best-seller! Que o diga Luiz Suwarez, editor da Companhia das Letras, considerada a editora mais sofisticada, pela qualidade de seus lançamentos. Ao ser entrevistado por Apoenam Rodrigues, em 02/11/94, Suwarez declarou que
acredita que os livros de sucesso estimulam leitores a novas descobertas literárias(...) e que o Brasil não está deixando de ser um país da qualidade porque Paulo Coelho faz sucesso. Ele tem uma proposta clara, que faz com muita competência, e atinge um público que provavelmente não estava aí (IE, p.6).
Podemos concluir que O alquimista é realmente um best-seller, porque conseguiu atingir a um número muito grande de leitores, pela sua alta vendagem, em virtude de falar a linguagem que esses leitores buscavam avidamente para alimentarem seus sonhos e desejos de uma vida melhor.
Na verdade, todos nós buscamos alguma coisa e nos identificamos com aqueles que falam a nossa linguagem. É assim que, no íntimo, são aventureiros os que buscam os livros de aventura nos quais realizam esse anseio.
Os que se sentem frustrados e acovardados diante da vida buscam nos autores místicos os recursos transcendentais para a aquisição de uma força psíquica capaz de reencorporá-los à luta pela sobrevivência.
Na atualidade, estamos vivendo momentos apocalípticos, o número dos que campeiam amargurados e desiludidos cresce dia-a-dia, crescendo concomitantemente o de autores de tempos venturosos, mediante a transmissão de mensagens míticas ou transcendentais, tendo como objetivo ensinar ao homem como resolver os seus problemas de ordem exclusivamente material.
O personagem Santiago é um indivíduo que em busca de seu “tesouro”, de sua “lenda pessoal”, encontra afinal a solução de todos os seus problemas de ordem material.
Cada um de nós, na verdade, é um pouco Santiago. Falamos dos bens do Céu, mas queremos mesmo os da Terra, pois precisamos do transcendental para viver a aventura da vida. Enquanto houver no mundo um descontente que seja, este buscará em alguém ou em alguma fonte informativa o motivo para voltar a acreditar na luta da cotidiano.
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